quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Palanca Negra Gigante, um tesouro de Angola

É um antílope imponente e de beleza rara. Está em vias de extinção, mas teima manter-se vivo, o que faz de si um animal super resistente. É, também por isso, uma referência para todos os angolanos. Um símbolo internacional de um país que viveu mergulhado num clima de guerra durante anos.
A Palanca Negra Gigante (PNG) existe apenas em duas áreas de conservação na província de Malanje: a Reserva Integral do Luando e o Parque Nacional da Cangandala, sendo a imagem de marca da companhia aérea angolana TAAG, o que faz com que o animal viaje pelo mundo pintado nos aviões da transportadora. O nome pelo qual é conhecida a selecção nacional de futebol (“Palancas Negras”) também é inspirado neste antílope. E não é por acaso que a mascote do CAN (Taça das Nações Africanas Orange Angola 2010), que se está a realizar no país entre os dias 10 e 31 de Janeiro, é a “Palanquinha”. Estamos, em suma, perante um tesouro muito bem guardado no coração de Angola.
Os extraordinários cornos da PNG, uma das quatro subespécies de palancas negras (ver caixas) – além destas existem também as palancas vermelhas –, fazem com que seja normalmente considerado o mais belo e nobre de todos os antílopes do mundo. Segundo o Ministério do Ambiente de Angola (MAA), a PNG foi descoberta em 1909 por Frank Varian, um engenheiro belga ao serviço dos Caminhos-de-Ferro de Benguela. No entanto, o animal só foi descrito sete anos depois, em 1916.
Trata-se de uma espécie em vias de extinção que tem sobrevivido a todas as intempéries. O período de guerra (entre 1975 e 2002) que assolou o país é um exemplo. Esta é uma situação que tende, no entanto, a mudar. Isto porque foi criado um Santuário de Reprodução da PNG, no qual foram colocadas – no ano passado – nove fêmeas e um macho. Segundo o MAA, “a operação foi um sucesso”.
Os primeiros tempos
Para contextualizar a história, é necessário recuar alguns anos. Com o objectivo de proteger a PNG, foi criado em 1938 o Santuário da Palanca Real. Mais tarde, em 1955, o mesmo foi elevado à categoria de Reserva Natural Integral do Luando. Depois, para protecção adicional contra actos de caça furtiva, foi decidido – em 1957 – o pagamento de uma multa de 100 mil dólares (67 mil euros) pelo abate de cada animal. Após terem sido descobertas posteriormente manadas de PNG na área da Cangandala – também na província de Malanje – foi criada, em 1963, a Reserva Natural Integral da Cangandala. Mais tarde, em 1970, a mesma foi declarada como Parque Nacional. Estas duas áreas protegidas são os únicos locais onde é possível encontrar este raro animal.
Até 1975 foram realizados vários estudos sobre a ecologia e hábitos da PNG. Para se ter uma ideia da quão rara é, estimou-se que a sua população rondasse, no máximo, os 2500 animais. Depois, entre 1975 e 2002, Angola viveu um período de guerra que afectou todo o território nacional. As áreas de conservação não foram excepção. Durante esses anos houve apenas rumores de terem sido avistadas algumas palancas negras gigantes.
Período pós-guerra marca a reviravolta
Em Setembro de 2003, o MAA, em parceria com o Centro de Estudos e Investigação Científica da Universidade Católica de Angola e com o Governo da Província de Malanje, deu início ao Projecto de Conservação da Palanca Negra Gigante (PCPNG). O primeiro passo era confirmar a sua sobrevivência, de forma a desenvolver um plano de conservação.
O projecto começou a dar frutos em Março de 2005, quando foram conhecidas as primeiras fotografias do antílope em mais de 20 anos. As imagens foram captadas através de câmaras ocultas e comprovaram que a população ainda não estava extinta no Parque Nacional da Cangandala, por isso continuou a ser monitorizada até ao ano passado, altura em que foram conhecidos os elementos da manada, a única no local.
Ao longo dos anos, a situação das populações na Reserva Integral do Luando era quase desconhecida devido às enormes dificuldades de acesso à região. Ao mesmo tempo, as expedições realizadas nunca foram suficientes para garantir a presença dos animais. A PNG demonstrou, assim, estar gravemente ameaçada. Quer devido à ausência de controlo e fiscalização no terreno, quer devido à caça furtiva generalizada nas reservas. Acredita-se que podem ser pagos cerca de 1,5 milhões de dólares (um milhão de euros) por um animal vivo. Segundo o MAA, “sendo a protecção uma tarefa que cabe ao Estado continua a ser fundamental encontrar um modelo para implementar um sistema de fiscalização efectivo”.
A chave do problema surgiu em 2009
No ano passado, o PCPNG propôs a realização de um plano de acção de emergência para ajudar a salvar a PNG no Parque Nacional da Cangandala. Tratou-se de uma operação de capturas que visou colocar as fêmeas sobreviventes num Santuário de Reprodução. Uma medida que implicou “um grande investimento em meios e coordenação delicada no terreno”, refere o MAA. Esta operação foi financiada pela Sonangol, ESSO e restantes parceiros do Bloco 15 e durou três semanas, tendo decorrido no Parque da Cangandala e na Reserva Integral do Luando. O Governo da Província de Malanje e as Forças Armadas de Angola também estiveram evolvidos no projecto.
Como parte desta operação, o MAA construiu um Santuário de Reprodução – uma área vedada com cerca de 400 hectares que será ampliada em 2010 (ver entrevista com biólogo Pedro Vaz Pinto) – no Parque Nacional da Cangandala, no qual foram colocadas as palancas que formam o núcleo reprodutor.
O projecto passo a passo
O principal objectivo foi capturar as fêmeas puras e colocá-las no santuário, separadas dos híbridos (mistura entre uma palancas negra gigante fêmea e uma palanca vermelha macho) e das palancas vermelhas. Depois foi apanhado um macho adulto puro na Reserva do Luando que também foi transportado para o santuário, de modo a criar condições de reprodução e conservação.
A operação de capturas começou dia 24 de Julho, com a chegada a Malanje do piloto Barney O’Hara e do helicóptero Hughes 500, vindos do Botswana. Peter Morkel, da África do Sul, foi o veterinário escolhido para coordenar a operação e cuidar dos animais. O parque teve a presença de grandes referências em biologia da conservação, como os cientistas Jeremy Andersen e Richard Estes.
Realizaram-se voos todas as manhãs no Parque Nacional da Cangandala e na Reserva Integral do Luando. Cada voo durou em média duas a quatro horas. O veterinário sentava-se atrás do piloto de forma a obter o melhor ângulo para alvejar os animais. Simultaneamente foi construída na primeira semana uma “boma”, zona temporária de adaptação que serviu como local de quarentena. O objectivo foi manter os animais em período de adaptação por uns dias antes de serem libertados.
Os antílopes escolhidos foram alvejados com um dardo que continha um “cocktail” de drogas. Depois de atingido, e com o veterinário no terreno, procedeu-se à avaliação da condição geral do animal, removendo o dardo e tratando a ferida, entre outros cuidados. O processo durou apenas alguns minutos, sendo que o animal ficou pronto para a última fase: ser libertado ou transportado para a “boma”. As palancas escolhidas para ficar no santuário foram transportadas de helicóptero.
Um projecto e uma operação de sucesso
O plano de acção de emergência para ajudar a salvar a PNG decorreu conforme planeado, sendo que foram capturados 21 animais nas duas reservas. Desses, 11 têm coleiras de transmissão de telemetria VHF, colocadas para possibilitar a sua monitorização. No Santuário de Reprodução foram colocadas nove fêmeas, as que existiam no Parque Nacional da Cangandala, e um macho capturado no Luando.
Segundo o MAA, o resultado da operação foi um sucesso: “Foram encontrados, imobilizados, manuseados e transportados mais animais do que o inicialmente esperado, e não houve qualquer incidente ou ferimento a registar. As decisões tomadas durante as três semanas revelaram-se as mais certas e agora a situação desta subespécie endémica de Angola está mais controlada, ainda que bastante vulnerável”.
A prioridade é, agora, manter esta população monitorizada e defender a conservação da PNG sem que os animais sejam retirados das áreas de origem. “Esperamos que este seja o início de uma nova era para a conservação não só desta espécie mas de toda a biodiversidade no país”, conclui o MAA.
E por falar em nova era, que o exemplo de sobrevivência da PNG sirva de estímulo aos futebolistas angolanos que representam o país no CAN a partir de dia 10.
 

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